Minha infância não era das mais abastadas (eu diria, nem um pouco abastada), mas a gente se virava como podia. Eu odiava miudezas (de boi e de aves), mas naquela época era a única forma da gente dizer que comia "carne". E eu afirmava que "adorava", apenas pra deixar feliz quem, com muito esforço, só conseguia isso: meu pai, lutando para se aposentar, e minha mãe, batalhadora mas sem emprego fixo.
Volta e meia, quando o dinheirinho da roça, da colheita de algodão, sobrava, era possível comprar um frango. Ou o dito cujo era mesmo um dos que criávamos no quintal, escolhido a dedo pelo meu pai. Depois de cozido, todos nós já sabíamos: os melhores pedaços iriam para o patriarca, e depois a mãe dividia o restante com os filhos.
Eu via que a minha véia não se sentia bem com isso, mas mantinha a autoridade e o bom senso de fortalecer e valorizar meu véio, que mesmo com uma perna quebrada, mal curada, e vítima de um princípio de AVC, trabalhava duro para pelo menos colocar algo na nossa mesa. Então, minha maior satisfação era ver a carinha de alegria da mamãe, quando me ouvia pedir, antes mesmo que a comida fosse servida, para que me desse os pés do penoso ou da penosa (sim, de vez em quando era a galinha que dançava).
Outras formas de dizermos que comíamos carne bovina ou suína (embora na maioria dos fins de ano, após muito trabalho, tivéssemos ao menos um cachaço pra fazer churrasco e ainda dividir com os vizinhos), eram as receitas com fígado, coração ou rins de boi. Em todas as oportunidades, eu fazia questão de elogiar a comida, só pra ver o sorriso daquela guerreira e daquele guerreiro.
De certa forma, essa postura ajudou a toda nossa familia, pois com pais animados foi muito mais fácil melhorar nossa vida aos poucos, até quando, enfim, chegamos a dias em que podíamos comer o que quiséssemos.
No entanto, tempos depois disso, percebi que tinha algo errado... Com o passar dos anos, acabei por transferir essa mania de agradar a quem me oferecia pouco para outras áreas, e nestas foi difícil mudar...
Me ofereciam trabalho demais e pagamento de menos... e eu achava que estava muito bom.
Me davam muitas responsabilidades e nenhum reconhecimento... mas e daí? Ficava contente (coisa nenhuma!) com o fato de saber que confiavam em mim.
Sempre dava o melhor de meus esforços, e em troca me contentava com meros elogios... mas deixava quem os faziam muito "orgulhosos" por isso...
Até o dia em que percebi que, na verdade, estava tentando agradar quem me dava "pé de frango" não porque não tinha como oferecer mais (como meus lutadores pai e mãe), mas sim porque achava que era isso que eu merecia.
Pra isso, não há receita que dê jeito! Uma coisa é fazer o possível para deixar feliz quem "faz o que está ao seu alcance" por você. Outra é supervalorizar quem te desvaloriza.
Ao perceber o quanto essa postura estava sendo nociva, então batalhei para mudá-la. Passei a ter a coragem de cobrar mais, de exigir mais em troca do que eu oferecia. "Se eu não dou valor a mim mesmo e para o que faço, quem vai dar?", pensei.
Então me empenhei em separar as coisas, mas agradecendo a todos por me permitir cada aprendizado.
Agradeci meus pais por tudo que fizeram, às vezes sem poder, e por terem ensinado a suportar as adversidades da vida com criatividade e força. Não deixei também de agradecer a quem me explorou, aproveitando-se da minha "tendência ao elogio e à não reclamação", pois também estes me ensinaram muito, de uma forma ou de outra.
E, livre, tratei de fazer as minhas próprias escolhas, de acordo com o que eu próprio podia oferecer, mas na certeza de que poderia alcançar mais do que imaginava. E assim vivo até os dias atuais, feliz, mesmo quando as dificuldades se apresentam, e tudo parece voltar a ser como nos tempos mais duros.
Hoje, sei reconhecer quem me oferece o que pode oferecer, com carinho, mas também sei quem me dá apenas o que pensa que eu mereço, de acordo com sua própria avaliação ou conveniência... e me dou o direito de escolher qual proposta será aceita.
Quanto aos miúdos, bem... Me acostumei com esse menu, mesmo porque a necessidade acabou por fazer com que a gente produzisse receitas magníficas com cada um dos produtos "alternativos". O bom é saber que hoje, felizmente, não preciso dizer que gosto de pé de frango pra agradar ninguém (mesmo porque hoje eu gosto de fato), e ainda fique sabendo: Quando faço uma panelada, até quem só está acostumado com filé não resiste...
MINHA QUERIDA ALMA, SEJA FONTE DE GRATIDÃO
MINHA QUERIDA ALMA, SEJA FONTE DE CRIATIVIDADE
MINHA QUERIDA ALMA, SEJA FONTE DE VALORIZAÇÃO PESSOAL

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